Sempre achei que falar do dinheiro que as pessoas em lugares destacados ganham não é bonito. Por mais que invoquem o nome da transparência democrática, ou precisamente por isso, essas conversas nunca me cheiram bem. O exemplo mais recente foi a divulgação do vencimento auferido pelo Bastonário da Ordem dos Advogado, que ronda os oitenta e quatro mil euros por ano; número sem dúvida interessante mas que foi difundido juntamente com o pormenor de que Marinho Pinto ganhava muito menos que isso como advogado. É um facto que as pessoas podem ser muito mazinhas. Por mais que não se goste do homem ninguém pode insinuar que o actual bastonário bastone por dinheiro. Marinho Pinto é um homem intenso que sempre defendeu os pobrezinhos. E os pobrezinhos, quando pagam, pagam com galinhas, enchidos ou serviços. É natural que ele não goste particularmente do dinheiro. Ele gosta de ser amado. Admito também que quando mais público seja esse amor, mais ele gostará. E se sair nos jornais e na televisão, então podia ficar em êxtase por ser amado por tantos. Mas daí a sugerir que os seus esforços na procura do amor sejam para ganhar dinheiro é injusto. Se ganha mais agora tanto melhor para ele. O homem faz por isso como tantos «one man shows» que dá em tudo quanto é sítio. No entanto, esta informação numerária dos vencimentos dos bastonários serviu-me para perceber porque é que outros bastonários ficaram tão pouco tempo a bastonar. Pessoas como José Miguel Júdice, António Pires de Lima ou Rogério Alves devem ganhar essa quantia por semana nos seus escritórios de advogados. Se Marinho Pinto é melhor bastonário que eles não sei e não me parece. Mas que gosta mais de bastonar do que eles, disso não tenho dúvidas. Isto é importante. É sempre bom ver pessoas que gostam do seu trabalho. Pena que agora não tenha tempo para poder tratar dos seus clientes miseráveis, abusados pela máquina jurídica e as desigualdades sociais. Mas, enfim, não se pode ter tudo. Fora isso, tudo bem.
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Texto - Carlos Quevedo ; Voz - Rui Unas
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